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A “ARRUMAÇÃO” QUE AUMENTOU A FOLHA: SAPUCAIA PROMETEU CORRIGIR A BAGUNÇA DE JUCA, MAS O DIÁRIO OFICIAL MOSTRA OUTRA HISTÓRIA

 

De 230 para 277 servidores e de 46 para 58 chefes de gabinete: a primeira grande movimentação da nova gestão levanta questionamentos sobre a promessa de ajuste administrativo e financeiro

Quando assumiu a presidência da Câmara Municipal de Lauro de Freitas, Nilton Sapucaia chegou apresentando-se como o homem que iria colocar a Casa em ordem.

O diagnóstico político era conhecido: a gestão anterior, comandada por Raimundo Damascena, o Juca, teria deixado uma suposta “bagunça administrativo-financeira” que precisaria ser corrigida. Mas até hoje sem transparência .

A promessa, portanto, era de ajuste, organização e responsabilidade com os recursos públicos.

Mas discurso se sustenta até o momento em que encontra os números.

E os números publicados no Diário Oficial oferecem uma pergunta incômoda: onde está o enxugamento?

A matemática que não combina com a promessa

Em junho de 2026, segundo o levantamento do Olhar Cidadão, a Câmara tinha 230 servidores, sendo 46 ocupantes identificados como chefes de gabinete.

Após a mudança no comando da Casa, veio a promessa de reorganização.

Mas, na edição do Diário Oficial de 30 de julho de 2026, a estrutura informada passou para 277 servidores, enquanto o número de chefes de gabinete chegou a 58.

São 47 pessoas a mais no quadro e 12 chefias a mais em relação ao cenário de junho.

E aqui está a contradição:

Se a promessa era arrumar a máquina administrativa e financeira, por que a primeira grande movimentação da nova gestão resulta justamente no crescimento da estrutura?

A Câmara deveria enxugar ou expandir?

O histórico torna a comparação ainda mais reveladora.

O histórico levantado pelo Olhar Cidadão LF mostra uma mudança expressiva na composição da Casa.

Em janeiro de 2025, eram 264 servidores, dos quais 9 chefes de gabinete.

Em junho de 2025, o quadro caiu para 230 servidores, enquanto as chefias subiram para 27 — número próximo da estrutura de 22 gabinetes parlamentares, considerando os 21 gabinetes de vereadores e o gabinete da Presidência.

Em janeiro de 2026, eram 201 servidores, sendo 47 chefes de gabinete.

Em junho de 2026, eram 230 servidores e 46 chefes.

Agora, em 30 de julho de 2026:

277 servidores e 58 chefes de gabinete.

De janeiro de 2025 a julho de 2026, o número informado de chefes de gabinete teria saltado de 9 para 58.

Isso representa 49 chefias a mais, um crescimento de aproximadamente 544%.

Já o quadro total de servidores passou de 264 para 277, aumento líquido de 13 pessoas. 

A diferença está justamente aí:

as chefias cresceram em velocidade muito superior ao quadro geral.

E há outro fator que não pode ser ignorado: segundo o histórico apresentado ao Olhar Cidadão, a Câmara já vinha sendo alvo de orientação do Ministério Público para redução do quadro de nomeados em gestões ante dores e novamente  em janeiro de 2026.

A “arrumação” começou com nomeações!

O discurso de austeridade ganhou um capítulo ainda mais curioso.

Um dos primeiros atos atribuídos à nova gestão foi a suspensão da chamada verba compensatória.

A medida poderia representar uma tentativa de contenção de despesas.

Mas cortar uma verba de um lado enquanto a estrutura de pessoal cresce do outro exige explicação.

Porque ajuste financeiro não se mede pelo anúncio de uma medida isolada.

Mede-se pelo resultado da folha.

E é justamente aí que o discurso precisa ser confrontado com os documentos oficiais.

O Diário Oficial não fala em discurso. Fala em atos.

A edição de 30 de julho de 2026 é a Edição 245 do Ano 2026 da Câmara Municipal de Lauro de Freitas. (Doem)

Nela aparecem diversos atos de pessoal, incluindo nomeações para o cargo de Assessor Chefe de Gabinete, símbolo AP-9, além de outros cargos comissionados, como assessor de bancada, assessor comunitário, assessor sênior e assessor técnico.

Há ainda um detalhe que chama atenção:

diversos atos publicados em 30 de julho estabelecem efeitos retroativos a 13 de julho de 2026.

Isso está expressamente registrado nos próprios atos.

Não é interpretação do Olhar Cidadão.

É o que consta no Diário Oficial.

Retroatividade: uma pergunta que precisa ser respondida

Não cabe ao jornalismo antecipar uma ilegalidade onde o documento, por si só, não demonstra isso.

Mas cabe perguntar.

Por que nomeações publicadas em 30 de julho tiveram efeitos retroativos a 13 de julho?

Qual foi a justificativa administrativa?

Qual impacto financeiro essa retroatividade produz?

E quais servidores efetivamente exerceram suas funções durante esse período?

A população tem o direito de saber.

A transparência não termina na publicação do ato.

Ela começa nela.

E ainda houve retorno de exonerados

A mesma edição também registra atos tornando sem efeito exonerações anteriores.

Entre eles estão atos envolvendo Alexa Giovana de Souza Fernandes, Daniela Ferreira dos Santos, Francisco de Jesus e Thaiane de Souza Santos.

No caso de Daniela, o ato se refere ao cargo de Assessora Chefe de Gabinete.

Na prática, a edição mostra simultaneamente novas nomeações e reversão de exonerações anteriores.

Mais uma vez, a pergunta é inevitável:

qual foi o planejamento administrativo que orientou essa movimentação?

De 9 para 58 chefes: coincidência ou modelo de gestão?

Talvez esse seja o ponto que mais mereça explicação.

Em janeiro de 2025, eram 9 chefes de gabinete, segundo o levantamento apresentado.

No decorrer do período, esse número cresceu.

Agora, sob a nova presidência, chega a 58.

É preciso reconhecer: não é possível ignorar outro fato:

a nova gestão assumiu prometendo corrigir a estrutura e, em poucas semanas, o quadro informado aumentou de 230 para 277 servidores e de 46 para 58 chefias.

É justamente essa contradição que precisa ser explicada.

Quem deixou a “bagunça”?

Se a gestão anterior deixou uma desorganização administrativo-financeira, Sapucaia precisa mostrar à sociedade qual era exatamente essa “bagunça”.

Quanto custava?

Quais contratos estavam comprometendo o orçamento?

Quais despesas foram consideradas excessivas?

Qual foi a economia efetivamente obtida?

Quanto a suspensão da verba compensatória representou de redução?

E, principalmente:

quanto custará a nova estrutura de pessoal?

Sem essas respostas, a crítica à gestão anterior corre o risco de permanecer apenas como narrativa política utilizada para justificar uma nova composição da máquina.

A conta precisa fechar

Sapucaia prometeu ajustar a Câmara.

O Diário Oficial mostra nomeações, reversões de exonerações e uma expansão do quadro informado.

A conta precisa fechar.

Porque não basta dizer que Juca deixou uma bagunça.

Se a missão era arrumar, a população precisa enxergar a arrumação na folha, nas despesas e na estrutura administrativa.

Até aqui, os números apresentados ao Olhar Cidadão produzem uma imagem desconfortável:

a Câmara que deveria ser enxugada cresceu.

As chefias que deveriam ser racionalizadas aumentaram.

E a promessa de ajuste ainda precisa aparecer na matemática.

GRÁFICO — A EVOLUÇÃO DO QUADRO

Fonte oficial: Diário Oficial da Câmara Municipal de Lauro de Freitas — Edição 245, de 30 de julho de 2026 (Doem)

OLHAR CIDADÃO PERGUNTA

Sapucaia assumiu para arrumar a “bagunça” deixada por Juca.

Então por que a Câmara chegou a 277 servidores e 58 chefes de gabinete?

A “arrumação” começou aumentando a máquina?

Ou alguém precisa explicar melhor o que significa, na prática, “ajustar administrativamente e financeiramente” a Câmara de Lauro de Freitas?

Porque, no serviço público, discurso é intenção.

Diário Oficial é documento.

E quando os dois contam histórias diferentes, é o documento que precisa ser explicado.

 

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